sábado, 31 de dezembro de 2011

Tempo


O tempo em seu constante caminhar dos ponteiros do relógio
nos traz angústias, medo e dor.
Uma realidade objetiva que constatamos no cotidiano
ou simplesmente pelas insistentes rugas que aparecem.


Hoje o belo é o efêmero.
O prazer a qualquer custo sobrepõe-se,
as sérias questões humanas são deixadas de lado 
pelo grande e poderoso imediatismo.


Retiro-me em busca de um tempo mais agradável
algo que pulse no mesmo compasso de meu ser
longe dos grandes centros de consumo, retiro-me.


Uma semana exclusivamente minha é o que preciso
para que o pulsar de meu corpo entre em compasso com o pulsar do tempo; tempo... tempo... tempo...


                                                                                                                                André

domingo, 25 de dezembro de 2011



Essência

Aparente cegueira 
Escuridão mórbida e soturna
Derradeiro dia, finda o reluzir da alma
Quase me acalma

Solto, louco, perdido no mundo
Ao mesmo tempo acorrentado ao passado,
Será uma escolha inevitável?
Ou simplesmente imponderável?

Já não sinto meus pés tocarem o chão.
Flutuo entre móveis empoeirados, 
esquecidos pelo tempo em um grande quarto escuro.

Em meio a devaneios turvos 
iludo-me e rezo, peço e imploro
libertai-me das amarras de teu ser.
                                                                                  André

sábado, 3 de dezembro de 2011



Um breve desabafo!


Nada será como antes
A dinâmica das coisas adquire novas proporções
O insuportável barulho dos ponteiros do relógio não param
Só seguem em uma mesma direção


Morremos a cada segundo
Vivemos a cada segundo
E de que vale a vida e suas grandes piadas
O "tudo" hoje, amanhã é "nada"


Cruel sucessão de horas frias e nefastas
Cruel desespero e mágoa
Crua, nua e desaforada vida


Ao enxergarmos o mundo com os óculos adequados
Percebemos que vivemos atolados
Numa eterna prisão de mentiras, dor e lágrimas.


                                                                 André

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Quatro anos inativo!

A volta dos que não foram!

É extremamente interessante que após exatamente 4 anos, sinta a necessidade de dar continuidade para esse espaço de reflexão que muito pouca gente lerá.

A internet é mesmo fantástica, uma infinidade de informações e pouquíssimas pessoas acessam.

Segue uma breve trajetória profissional que pontua algumas questões desinteressantes sobre a minha vida. Não sei nem porque decidi compartilhar isso, mas vá lá.

O título desse texto não guarda falsa modéstia alguma, eu tenho plena cosnciência de que minha vida é extremamente desinteressante, nem 1% dos sonhos e desejos que tenho foram, ou algum dia serão realizados.....

"É preciso estar atento e forte, não temos tempo de temer a morte"
Caetano Veloso

A desinteressante história de André Olobardi

Nasci em São Bernardo do Campo, berço da indústria automobilística e dos grandes movimentos grevistas do final da década de 1970, especificamente no dia 02 de março de 1979, ano da Anistia Política. Meus pais de origem pobre, meu pai neto de imigrantes italianos que vieram após a 1ª Guerra Mundial, minha mãe filha da mais bela mistura brasileira, índio, negro e nuancem espanholas e portuguesas.

Meus pais fiéis representantes da classe trabalhadora começaram a trabalhar entre 8 e 9 anos de idade, pois precisavam completar o orçamento familiar. Isso já mostra que suas trajetórias escolares foram de curta duração. Meu pai completou o programa de admissão e minha mãe não chegou a completar a 4ª série de ensino primário, ambos trabalhavam em tecelagens aqui no ABC. Mesmo com poucos recursos meu pai estudou em escolas técnicas da região e por ironia particulares, aprendeu mecânica e desenho técnico, já a minha mãe após o meu nascimento assumiu o papel de dona de casa.


Sob estas condições de baixa escolarização de meus pais, o incentivo e a expectativa em relação a minha trajetória escolar sempre foi muito grande, com eles e as reais condições em que vivíamos aprendi desde muito cedo que existem coisas mais importantes e decisivas na formação pessoal do que a mera escolarização. Meus pais com grande sabedoria me criaram sob a prática do exemplo e da retidão de caráter, valores como solidariedade e honestidade foram apreendidos na prática do dia-a-dia. A carência material era suprida pelo carinho, cuidado e amor, isso meus pais tinham de sobra. Aprendi a beleza da simplicidade com meu pai, um homem de hábitos simples e poucas, mas sábias palavras. E com minha mãe aprendi a beleza do encanto por coisas pequenas, como por exemplo, maravilhar-se com um novo broto em uma de suas plantas.

Meus pais viam na escolarização a possibilidade de melhorar as condições de vida e atribuíam a escola uma importância religiosa. Lembro-me que no começo do ano, quando chegava a lista de materiais para comprar, íamos até uma papelaria de um bairro vizinho que parcelava em diversas vezes o pagamento, meu pai pegava uma sacola dessas de feira, e íamos buscar o material para o ano todo.

Aos 14 anos, quando conclui a 8ª série do 1º Grau, meu pai me incentivou a cursar ajustagem mecânica no SENAI e claro, o pacote incluía a especialização em ferramentaria associada ao curso noturno na ETE Lauro Gomes de Desenho e projeto de mecânica. A preocupação com a profissionalização no grande polo metalúrgico do país era o sonho de toda família operária, sobretudo a formação em Desenho e Projeto, que apontava a possibilidade de ascender ao trabalho intelectual, mesmo que em posições subalternas. A ideia frequente em casa era justamente a melhoria das condições de vida.

Nestas escolas técnicas tive professores que marcaram minha trajetória escolar de maneira muito negativa. O incentivo a concorrência e a luta pela sobrevivência dentro das empresas era exatamente o oposto do que eu aprendia em casa com meus pais. O mais importante em casa era a cooperação, o trabalho em conjunto a divisão de tarefas, talvez isso tenha me desestimulado a encarar a carreira técnica. A maior parte dos professores possuía um conhecimento técnico muito bom, porém uma didática extremamente ruim. Utilizavam de recursos que beiravam a humilhação expondo os erros como em um show de horrores.

Hoje eu valorizo essa formação porque no mínimo eu aprendi como não se deve conduzir uma turma em um processo de ensino-aprendizagem. Os recursos didáticos utilizados não passavam de mera memorização de dados, tabelas e um claro condicionamento para o trabalho na empresa, é de fato uma educação para a submissão, tínhamos uma disciplina no SENAI chamada RIS – Relações industriais e Segurança – na qual eram discutidas normas de “bem viver” dentro da empresa, o que significa aceitar as imposições sem questionamentos ou críticas.

Quando alcancei certa independência financeira pude decidir a minha vida e fui cursar Ciências Sociais na Fundação Santo André, em 2000 era ainda uma faculdade na qual a classe trabalhadora podia pagar a mensalidade sem esforços hercúleos.

O assunto me interessava e isso me impulsionava a estudar cada vez mais, ingressei no movimento estudantil e senti mesmo que temporariamente a possibilidade de mudar o mundo, não através da educação, mas sim através da ação prática de intervenção na realidade. Lá encontrei excelentes professores que me mostraram que era possível pensar criticamente o mundo, encontrei diversas práticas pedagógicas muito diversas daquelas que o ensino técnico proporcionava.

Quando terminei o curso em 2003, comecei a procurar trabalho como docente foi mais fácil encontrar do que eu imaginava, tive sorte, porém ao entrar em sala de aula não sabia nem por onde começar! Isso muito me assustou, percebi que não estava preparado para o trabalho docente e voltei aos estudos, buscando estratégias pedagógicas e lendo muita coisa sobre didática e filosofia da educação.

Se por um lado eu tinha deficiência de formação, o relacionamento com os estudantes sempre foi meu ponto forte. Não queria cometer os erros dos meus antigos professores e buscava sempre coisas novas para diversificar as aulas imprimindo um ritmo próximo ao ritmo do cotidiano dos estudantes. Eu ainda nesses poucos anos de carreira não tive problema que não conseguisse solucionar com os estudantes. Busco sempre compreendê-los e verificar quais são as suas necessidades. Parto da premissa que todos podem e vão aprender algo durante a vida, e que podemos buscar a compreensão do mundo sem aceita-las como são.

Quanto a diversidade em sala de aula acredito ser extremamente importante, pois existe algo que nos liga, vivemos no mesmo mundo, e somos da mesma espécie, as diferenças existem e existirão sempre, o que devemos prestar atenção são nas desigualdades, essas sim são nocivas.

Os desafios são extremamente estimulantes, sobretudo no que diz respeito ao ensino aprendizagem, buscar a estratégia mais adequada à determinada discussão é fundamental e extremamente gratificante. Por incrível que possa parecer os fracassos são mais fascinantes que os acertos, aprendo mais com os fracassos do que com os sucessos, o aprendizado constante beira a compulsão, quanto mais aprendemos mais percebemos que nos falta muito ainda.

Quanto a estrutura jurídico-política da escola, no modo de produção capitalista ela está posta, cabe-nos encontrar espaços de resistência e de alguma forma atuar nas contradições do sistema. A educação pode não transformar a realidade na qual vivemos, mas ainda é um campo do embate ideológico e possível para a criação de novas formas de ver o mundo.

Portanto a trajetória de minha formação que ainda está em curso (e sempre estará enquanto estiver vivo) deve ser objeto de constante reflexão, uma vez que as relações sociais são dinâmicas e as transformações que ocorrem hoje no mundo tem uma velocidade muito maior do que há 20 anos atrás. Por isso a prática docente deve estar atrelada a constante reflexão, precisamos mas do que em outros momentos desenvolver processos de ensino-aprendizagem para os estudantes reais que nós temos hoje que são muito diferentes do que em épocas anteriores, da mesma forma que o mundo se transforma de maneira vertiginosa as relações sociais também.

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

O que são Instituições Sociais
"Quando se observa qualquer grupo social estável e de existência duradoura - seja a família, seja a Igreja, a escola ou uma empre-sa -, verifica-se que eles subsistem graças à existência de regras e procedimentos padro-nizados, cujo objetivo fundamental é manter a coesão interna do grupo e satisfazer certas ne-cessidades da sociedade da qual ele faz parte,
As estruturas sociais estáveis (ou formas de organização) baseadas em regras e procedi-mentos padronizados, socialmente reconheci-dos, aceitos, sancionados e seguidos pela so-ciedade são denominadas instituições sociais.
Assim, instituição é toda forma ou estrutura social instituída, constituída, sedimentada na so-ciedade. São os modos de pensar, de sentir e de agir que a pessoa, ao nascer, já encontra es-tabelecidos e cuja mudança se faz lentamente, muitas vezes com dificuldades. As instituições são formadas para atender a necessidades so-ciais de uma sociedade. Elas servem também de instrumento de regulação e controle das atividades dos membros dessa sociedade.
No estudo das instituições sociais, dois as-pectos devem ser levados em conta: as dife-renças entre grupo e instituição e a interde-pendência entre as instituições.
Grupo social e instituição social
Apesar de dependerem um do outro, grupo e instituição são duas realidades distintas.
Os grupos sociais são reuniões de indivíduos com objetivos comuns, envolvidos num pro-cesso de interação mais ou menos contínuo. Já as instituições sociais se referem a regras e pro-cedimentos que se aplicam a diversos grupos.
Por exemplo: o pai, a mãe e os filhos formam um grupo primário; as regras e os procedimen-tos que regulamentam essa relação fazem par-te da instituição familiar. Isso significa que as mesmas regras e normas de conduta de uma família valem para todas as famílias de uma de-terminada sociedade, já que elas assumem um caráter institucional.
Outro exemplo. Os membros de uma em-presa constituem um grupo social formado por acionistas, administradores, prestadores de ser-viços e empregados. As relações entre essas pessoas são reguladas por leis, regras e pa-drões que objetivam fazer a empresa funcionar e dar lucro aos proprietários. Essas normas caracterizam a instituição económica, pois seus preceitos são igualmente aplicados em todas as empresas.
Interdependência entre as instituições
Vamos começar com um exemplo. A escravidão era uma instituição que existiu no Brasil até 1888. Com a libertação dos escravos, as instituições econômicas do país sofreram pro-fundas transformações: deixou de haver traba-lho escravo e os trabalhadores passaram a re-ceber salário. Como resultado, as instituições familiar, religiosa e educacional foram igual-mente afetadas por essa mudança institucional e tiveram de reorganizar seu sistema de síaíus, seus padrões de comportamento e suas nor-mas jurídicas em relação aos ex-escravos.
O exemplo mostra que uma instituição não existe isolada das outras. Há entre elas uma re-lação de interdependência, de tal forma que qualquer alteração em determinada instituição pode acarretar mudanças maiores ou menores nas outras.
Principais tipos de instituição
As principais instituições sociais são: a família, o Estado, as instituições educacionais, a Igreja e as instituições económicas.
A família
Embora as normas sociais institucionaliza-das determinem as regras de funcionamento
da instituição familiar, cada família tem ainda suas próprias normas de comportamento e con-trole. Em cada grupo familiar, seus integrantes se reconhecem biológica e culturalmente, porque cada família tem uma cultura particular. Grupo primário de forte influência na formação do indivíduo, a família é o primeiro corpo social no qual os indivíduos convivem.
É um tipo de agrupamento social cuja es-trutura varia em alguns aspectos no tempo e no espaço. Essa variação pode se referir ao nú-mero e à forma do casamento, ao tipo de fa-mília e aos papéis familiares.
Número de casamentos
Quanto ao número de casamentos, a fa-mília pode ser monogâmica ou poligâmica.
  • A família monogâmica é aquela em que ca-da marido e cada mulher tem apenas um cônjuge, quer essa relação seja estabelecida por uma aliança indissolúvel (até à morte), quer se admita o divórcio (como é o caso da nossa so-ciedade). A lei brasileira permite um novo casa-mento após o término do casamento anterior.
  • A família poligâmica é aquela em que cada esposo pode ter dois ou mais cônjuges. Ao casamento de uma mulher com dois ou mais ho-mens dá-se o nome de poliandria. Esse tipo de família existe, por exemplo, entre as tribos do Tibete e entre os esquimós. O casamento de um homem com várias mulheres chama-se poliginia. Essa prática pode ser encontrada entre certas tribos africanas, entre os mórmons e en-tre os povos que seguem a religião muçulmana.
Formas de casamento
Quanto às formas de casamento, temos a endogamia e a exogamia.
  • Endogamia quer dizer casamento permitido apenas dentro do mesmo grupo, da mesma tri-bo. Era uma forma de casamento muito comum nas sociedades primitivas, sendo encontrado ainda hoje no sistema de castas da Índia e em algumas famílias no Nordeste brasileiro.
  • Exogamia trata-se da união com alguém de fora do grupo, entre as pessoas de religião, raça ou classe social diferentes."
Pérsio Santos de Oliveira

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

Algumas questões de método em sociologia
Pode-se dizer que a sociologia surgiu como ciência autônoma a partir de Comte e Saint Simon. Mas não ainda como disciplina constituída com um corpo sistemático de conhecimentos e de métodos específicos. O processo de autonomização da sociologia, em especial sua separação da filosofia, percorre todo o século XIX e, de certo modo, persiste ainda em nossos dias. Em Comte surge, pelo menos, a preocupação de estudar a sociedade com critérios "científicos".
Na Idade Média, com o rígido controle da Igreja, os espíritos mais indagadores e sábios eram ameaçados com o fogo do inferno e ardiam, de fato, nas fogueiras da inquisição. A ciência não podia discutir as causas últimas da natureza e dos fenômenos sociais, pois tais problemas só poderiam ter uma solução justa por meio da "revelação".
No Renascimento começa o conflito entre as concepções teológicas, sustentadas pela escolástica (que era um método de filosofar que tentava demonstrar a verdade da religião), e a ciência experimental que estava surgindo. A ciência experimental, por seu turno, paralelamente ao desenvolvimento da técnica, reforçava a idéia da burguesia nascente de que a "razão" era onipotente e não deveria estar limitada por quaisquer entraves ou preconceitos.
Quem primeiro formulou as regras mais gerais do que deveria ser o método científico foi Descartes, que negava a existência de noções apriorísticas legítimas e condenava a especulação, favorecendo, desse modo, a ciência experimental e a observação. No século XVIII, com Newton, começa propriamente a "revolução científica" no terreno das ciências naturais, que a partir desse momento conquistam sua "carta de alforria" em relação à religião.
Nessa época, o movimento que foi chamado de Iluminismo, defende o poder absoluto da "razão" humana. Trata-se de uma concepção burguesa que se inspira, fundamentalmente, na idéia de uma conjunção necessária entre o progresso material e o aperfeiçoamento moral da sociedade. O Iluminismo implica, também, na idéia de que a "razão" pode oferecer os critérios e princípios para reformular e organizar a sociedade, pois concebe a "natureza humana" como algo factível, dado de uma vez para sempre e passível de ser perfeitamente compreendida de modo "racional e científico". Um exemplo clássico, no campo da filosofia, é Feuerbach, que, segundo Marx, entendia a essência humana apenas "como gênero", como generalidade interna, muda, que liga apenas de modo natural os múltiplos indivíduos" (1). Porém, o jovem Marx (e segundo alguns, também em sua maturidade) tampouco escapou das influências do Iluminismo, manifestando irrestrita confiança nos poderes da "razão" e da "ciência" para libertar os homens de toda a opressão.(...) Há nele, sem dúvida, uma crença nas possibilidades da humanidade e na grandeza da "razão" (desde que saiba perscrutar o homem como ser histórico), o que talvez seja, precisamente, o legado irrenunciável do Iluminismo. No entanto, o fato, é que foi Durkheim quem aceitou plenamente o desafio posto por Comte, no sentido de enquadrar, em termos de métodos e procedimentos epistemológicos, as ciências sociais nos padrões das ciências naturais.
Durkheim, em certos aspectos, discordava de Comte: a idéia da existência de "conexões causais", por exemplo, era aceita por ele, embora fosse alheia aos princípios do positivismo. A finalidade da ciência, conforme Durkheim, seria descobrir as conexões causais, a causalidade dos fenômenos observados na sociedade. O modelo da ciência social proposta por Comte era a física. Tratava-se, assim, de fundar uma "física social". Durkheim, à semelhança de Spencer tem como modelo da ciência social a biologia. Mas reconhece como diferença fundamental entre uma e outra, o fato do corpo humano ter uma única consciência, enquanto a sociedade possui uma infinidade de consciências.
O método que Durkheim aplicou a sociologia pode ser sintetizado pelas palavras de Guiddens: "Os fatos sociais, afirmou ele com destemor, precisam ser tratados como "coisas" - talvez o mais controvertido dos preceitos expostos em As Regras do Método Sociológico. Essa brusca afirmação de que os fenômenos sociais pertencem ao reino da natureza é apresentada no livro no contexto de uma interpretação vigorosamente comteana do progresso da ciência. A ciência empírica tem de vencer os preconceitos e ilusões das idéias do homem acerca da natureza antes que a própria conduta social possa ser examinada cientificamente: eis aí uma proeza particularmente difícil de executar, pois o preconceito e a ilusão, na verdade, fazem parte da nossa vida social. Encarar os fatos sociais como coisas é realizar o ato de desapego necessário ao reconhecimento de que a sociedade tem existência objetiva independente de qualquer existência particular nossa; daí que possa ser estudada por métodos de observação objetiva. O traço mais importante de uma "coisa" é não ser plástica à vontade: uma cadeira se moverá se for empurrada, mas sua resistência demonstra que ela existe externamente a quem quer que a esteja empurrando. O mesmo se aplica aos fatos sociais, ainda que não sejam visíveis de modo como o é um objeto físico, como a cadeira." (2)
Não seria preciso dizer que, ao enquadrar a sociologia nos moldes das ciências da natureza, partindo do princípio que os fatos sociais devem devem ser tratados como "coisas", Durkheim reifica a sociedade humana. Quer dizer, toma as relações sociais que transcorrem na dimensão da historicidade como se constituíssem um objeto sujeito a certas leis rigorosas, absolutamente independentes da consciência humana. As relações sociais não são tomadas como inseridas num processo histórico. Assim, Durkheim afirma explicitamente nas Regras do Método Sociológico que os fatos sociais são fenômenos naturais submetidos à leis naturais. E além disso, que devemos considerar os fenômenos sociais desligados dos sujeitos conscientes que, eventualmente, possam ter determinadas representações.
(...) Durkheim teve o mérito de fazer um apelo à exterioridade. Ou seja, ao estudo das manifestações objetivas dos fenômenos sociais, abrindo possibilidades heurísticas bem superiores àquelas que ele mesmo colocou. Se o método de Durkheim, no sentido mais global, está irremediavelmente comprometido com a perspectiva apologética que caracteriza o positivismo, seus estudos desenvolveram e inspiraram "métodos especiais" (técnicas) de pesquisa que hoje são imprescindíveis às ciências sociais.
A posição de Weber, outro clássico da sociologia, em certo sentido, é exatamente oposta a de Durkheim. É o que indica claramente Bourdieu: "Para Weber, não existe um "mundo objetivo" no sentido em que Marx se refere à sociedade global ou Marcel Mauss aos fenômenos sociais totais; a objetividade do social só pode ser apreendida através das ações individuais. A adequação dos tipos-ideais a uma "realidade objetiva" adquire, assim, para a sociologia weberiana, uma importância fundamental; todo o problema se resume em construir uma tipologia da ação - o capitalista, o sacerdote, o profeta, o político, o cientista - para que se possa compreender as objetivações como capitalismo, religião, política e ciência." (3)
Portanto, se para Durkheim o método implica em descobrir toda a verdade na objetividade do social, inclusive os valores que nela estão inscritos independentemente das vontades e consciências, para Weber o método consiste em separar o objeto dos valores. Embora reconheça que, concretamente, na história os fatos e os valores estão unidos e implicados, para ele é possível (e necessário), do ponto de vista epistemológico, efetuar essa separação no processo mesmo de busca da verdade. Segundo Weber, não é a realidade em si mesma que é regida por leis naturais objetivas, mas é possível - dentro de certos limites - atingir a "objetividade" através do método. Para tanto, seriam necessárias algumas condições básicas: a) não recorrer a pressupostos que impliquem em juízos de valor; b) verificar as próprias constatações através do recurso à explicação causal; c) compreender que na seleção dos problemas está embutida uma "relação de valores" que é inevitável, mas que no resultado do conhecimento pode ser superada através do método adequado, já que não são propriamente "juízos de valor".
Na concepção de Weber, que tem a racionalidade da realidade social como eixo-central - pois se a sociedade se constitui como uma inter-subjetividade racional, ela só pode ser apreendida racionalmente, - a construção dos "tipos ideais", que tem como função "explicar" a lógica dos fenômenos, é o ponto nodal do seu método de investigação. Não obstante ele próprio, dotado de uma cultura universal e de enorme talento, tenha produzido trabalhos científicos sumamente importantes na história da sociologia, e que continuam tendo grande valor heurístico, é interessante observar que o método weberiano não fez "escola". Weber talvez tenha sido o único grande weberiano que a história registra. Mesmo entre os intelectuais universitários de nossa época, que discorrem longamente sobre seus méritos, é raro encontrarmos uma adesão global às concepções de Weber. Acontece que, o subjetivismo das premissas weberianas, à medida que negue qualquer possibilidade de totalização social (como faz Durkheim, embora de modo reificado ou de totalização histórica (como faz Marx), deixa margem a um arbítrio metodológico de difícil equacionamento. Nos estudos atuais, Weber normalmente é convocado para socorrer os ecléticos em questões teóricas ou metodológicas pontuais.
Marx talvez seja, não o mais difícil, porém o mais complexo dos clássicos da ciência social. E, sem dúvida nenhuma, é o mais comprometedor entre todos eles, pelo simples fato que foi o mais comprometido com a luta pela transformação social. Esse fenômeno, por si mesmo, já aponta uma das características fundamentais do método marxiano. "Os filósofos - afirmou - se limitaram a interpretar o mundo de diferentes maneiras; mas o que importa é transformá-lo."(4) Outra característica essencial da metodologia de Marx é o pressuposto de uma totalização histórica que considera "a produção e reprodução das condições materiais de existência" como dimensão básica e angular da sociedade. Isso significa que, segundo Marx, não podemos compreender a sociedade como objetivação que possui determinadas leis, nem a conduta "racional" dos homens no interior desse processo, se não levarmos em conta (ao nível dos pressupostos epistemológicos prioritários) aquilo que é prioritário aos próprios homens que vamos analisar.
"Mas, para viver, é preciso antes de tudo comer, beber, ter habitação, vestir-se e algumas coisas mais. O primeiro ato histórico é, portanto, a produção dos meios que permitem a satisfação destas necessidades, a produção da própria vida material, e de fato este é um ato histórico, uma condição fundamental de toda a história, que ainda hoje, como há milhares de anos, deve ser cumprido todos os dias e todas as horas, simplesmente para manter os homens vivos." (5)
As críticas ao método sociológico fornecido pelo marxismo partem, estranhamente, de dois lados. Daqueles que, seguindo a tradição positivista, consideram que suas premissas não são "suficientemente científicas" em termos das ciências naturais (que são tomadas como parâmetro), pois partem de generalizações que não podem ser comprovadas por via puramente empírica, além de estarem tais premissas vinculadas à noção "terrificante" da dialética. Nesse campo, podemos citar, por exemplo, Mário Bunge, que condena o marxismo como mera "ideologia" e, portanto, incapaz de propor "tecnologias sociais" eficazes para solucionar problemas fragmentários.
Mas as críticas partem, igualmente, daqueles que condenam o marxismo por suas pretensões "extremadas" em termos científicos. E a posição de Castoriadis: A filosofia da história marxista é, em primeiro lugar, e sobretudo, um racionalismo objetivista. Já vemos isso na teoria marxista da história aplicada a história passada. O objeto da teoria da história é um objeto natural e o modelo que lhe é aplicado é um modelo análogo ao das ciências da natureza. Forças que agem sobre os pontos de aplicação definidos produzem resultados predeterminados de acordo com um grande esquema causal que deve explicar tanto a estática como a dinâmica da história." (6)
Submetido a um "fogo cruzado", o marxismo, por certo, é mais vulnerável a essa última posição. O que há de equívoco no marxismo não é o seu "compromisso ideológico" com os explorados e oprimidos, nem o fato de adotar premissas de ordem histórica, mas, ao contrário, certas veleidades de "ciência estritamente objetiva" - tal como as ciências naturais - que se insinuam nos escritos dos clássicos (Marx, Engels, Lênin etc.) e se derramam copiosamente na caligrafia de Stálin e seus epígonos. No entanto, embora Marx não tenha sido um "sociólogo" no sentido estrito e restrito do termo, pois suas contribuições são de caráter mais amplo, seu pensamento representa um eixo crucial das ciências sociais em geral e da sociologia em particular. A partir dele, o método da sociologia - no sentido de um sistema de categorias operantes como desvendamento do real- tentou assimilar numa grande síntese teórica os dois termos da problemática social: conhecimento e ação, indivíduo e sociedade, sujeito e objeto, agente e estrutura, consciência e leis históricas, enfim, "unidade e luta dos contrários" como autoprodução histórica dos homens reais e concretos. Que essa síntese não esteja pronta e acabada, que apresente limitações e ambigüidades, só fazem reafirmar seus pressupostos mais gerais de que a humanidade é um gesto que constantemente estamos fazendo, e que a verdade é um processo ininterrupto, portanto impossível de verificação definitiva "pela via puramente empírica".
Assim, não é de estranhar que Guiddens, um dos sociólogos contemporâneos mais acatados nos meios acadêmicos - e reconhecido pelo seu explícito ecletismo, - ao sumariar as suas "novas regras do método sociológico", coloque como primeira delas uma idéia de inspiração nitidamente marxista:
"A sociologia não esta interessada em um universo `pré-datado' de objetos, e sim em um universo que é constituído e produzido pelas ações ativas dos sujeitos. Os seres humanos transformam socialmente a natureza, e ao ` humanizá-la' eles se transformam; mas eles não produzem o mundo natural, é claro, que está constituído como um mundo-objeto, independentemente de suas existências. Se ao transformar esse mundo, eles criam a história, e portanto vivem na história, eles o fazem porque a produção e reprodução da sociedade não são "programadas biologicamente", como entre os animais inferiores. (As teorias que os homens desenvolvem podem afetar a natureza, através de suas aplicações tecnológicas, mas elas podem não chegar a se constituir como características do mundo natural, como o são no caso do mundo social.)" (7)
Ora, se a sociologia em particular e as ciências humanas em geral possuem essa indescartável dimensão subjetiva, decorre que não podemos considerar a questão dos valores ou da ideologia como um "resíduo" ou empecilho do conhecimento, a exemplo do que ocorre normalmente nos meios universitários. As ciências humanas devem buscar o seu próprio estatuto de cientificidade e abandonar, de uma vez por todas, o que poderíamos chamar de "complexo de ciências naturais".
As ciências naturais, por terem como objeto um mundo que não é constituído por sujeitos, tal como ocorre em relação à ciência social, apresentam, em cada época, pressupostos epistemológicos e métodos de verificação mais estáveis e harmônicos. Isso não quer dizer que sejam infensas às rupturas, revoluções epistemológicas e anarquia metodológica, e até mesmo às lutas marcadamente ideológicas e políticas em termos de formas de constituição e legitimação dos conhecimentos produzidos. Sem falar naquelas contradições mais óbvias, que dizem respeito à localização dos problemas e prioridades de pesquisa. Porém, nas ciências sociais tais lutas são sempre mais intensas e agudas, pois o que esta em jogo não são objetos ou objetivações que, indiretamente, produzirão seus efeitos (em geral confusamente percebidos) nas relações sociais. Ao contrário, o que está sendo tratado, por exemplo na sociologia, são as próprias ações dos homens uns sobre os outros. E além do mais, nas ciências sociais, as hipóteses, explicações ou teorias, verdadeiras ou falsas, em alguma medida passam a compor o próprio objeto estudado à medida que são divulgadas. Do conhecimento produzido pelas ciências da natureza, podemos dizer que, tendencialmente, caminham no sentido de explicitar a objetividade em si mesma, como algo independente das vontades e interesses humanos. Por outro lado, nas ciências sociais, em virtude de tratar com um objeto paradoxal, por ser um "objeto sujeito", enquanto o sujeito que investiga, ele próprio é uma parte inseparável do objeto investigado, a pergunta "o que é a sociedade" é rigorosamente inseparável de outra: "como deve ser a sociedade?".
Portanto, a diversidade e as discussões metodológicas que permeiam as ciências humanas não apenas são inevitáveis, como absolutamente necessárias. Não se trata de "imaturidade" ou "crise de formação" de uma ciência que seria ainda muito jovem, mas algo que resulta de sua própria essência como modalidade do saber. As classes sociais (e até os indivíduos) ocupam uma posição diferente dentro da sociedade e, por esse motivo, é natural que tenham motivações, interesses e perspectivas teóricas diferentes ou, no caso de classes antagônicas, perspectivas teóricas opostas. Afirmar que só existe uma resposta possível, "cientificamente correta", para cada questão social, ou um único tipo de questão em torno de cada temática, é preparar teoricamente o terreno da manipulação e do obscurantismo. Vale dizer, no entanto, para evitar possíveis mal entendidos, que não estamos propondo uma total arbitrariedade subjetivista nas ciências sociais, nem a imprecisão como mérito do conhecimento. A verdade concreta existe, pois a realidade social é algo que objetivamente estamos reproduzindo e construindo diariamente. Mas exatamente por ser uma realidade em constante auto-produção - ao invés de uma "coisa" já feita e acabada - o critério da verdade remete para o próprio processo de auto-construção social do homem e não para eventos específicos, tomados empiricamente, que dariam a palavra final, o veredito, sobre a verdade ou falsidade de uma hipótese ou teoria.
Por isso, cada corrente de pensamento, a partir de suas próprias premissas, num diálogo constante com as demais, buscando assimilar seus métodos especiais e confrontando resultados, deve desenvolver suas pesquisas e seu corpo teórico. Mas quando falamos em "diálogo" estamos falando de crítica, e quando falamos de crítica estamos falando de análise e confrontação, o que inclui a discussão dos "valores" que estão por trás de cada postura epistemológica. No campo teórico, a única postura que realmente obstaculiza o avanço geral do saber é a indiferença, a sinuosidade das afirmativas que, antes de tudo, visam não atingir ninguém".
De qualquer modo, tanto nas ciências naturais quanto nas sociais, o método é sempre indispensável, até mesmo quando se pretende superar todos os métodos passados. E isso, porque o conhecimento humano tem dois pressupostos fundamentais: 1) a unidade do real, que se comprova pelo simples fato da generalização e da abstração que constituem a própria essência dos conceitos; 2) o caráter cumulativo do conhecimento que fica demonstrado, não pela continuidade formal das teorias, mas exatamente pelo fato que, apesar das descontinuidades, a práxis humana tem uma direção ascendente, ou seja, o homem domina e se apropria cada vez mais do mundo objetivo. Ora, se o mundo real tem uma determinada unidade ontológica e o conhecimento é cumulativo, resulta que só podemos penetrar no desconhecido pela via do conhecido. O método é uma ponte que o mundo conhecido lança sobre o mundo desconhecido, independentemente de nossa disposição em utilizar este ou aquele método. Logo, se o método é inevitável, é melhor que seja consciente e sistemático, o que não significa assumir o "dogmatismo do método", o que nos levaria apenas até as portas do desconhecido, sem condições de penetrar efetivamente nele. O método é dinâmico. Caracteriza-se também, tal como o conhecimento, por ser um processo e nunca um ponto fixo. Numa palavra, o método é constituído pelos conhecimentos fundamentais acumulados a respeito do processo de conhecimento. Para Castoriadis, ele é um "sistema de categorias operantes", o que significa dizer que ele decorre dos conhecimentos mais universais e tem como finalidade lançar uma primeira luz sobre as realidades particulares que temos como objeto. Em termos filosóficos, isso se manifesta do seguinte modo: "O conhecimento da realidade, o modo e a possibilidade de conhecer a realidade dependem, afinal, de uma concepção da realidade, explícita ou implícita. A questão: como se pode conhecer a realidade? é sempre precedida por uma questão mais fundamental: o que é a realidade?"(8) Portanto, de certo modo, o método é tudo que se sabe do objeto antes de abordá-lo diretamente. São os caminhos que devem ser assumidos para penetrar na realidade do objeto do conhecimento. Tais caminhos são definidos em níveis de abstração decrescentes: partimos, por exemplo, do pressuposto de que a realidade histórica é dinâmica, possui contradições, etc, até chegarmos aos instrumentos específicos (tais como questionários, entrevistas, observação participante...) que visam desvendar concretamente uma realidade particular.
Enfim, se é inerente à sociologia e as ciências humanas a pluralidade das perspectivas teóricas, a diversidade dos métodos, também o é a "socialização das técnicas" de pesquisa. Nesse terreno, especialmente, qualquer preconceito é extremamente nefasto. Grande parte dos métodos ou técnicas de pesquisa empírica já são, hoje, patrimônio comum da sociologia, à medida que utilizados no contexto de pressupostos e categorias teóricas que estabelecem seus limites e possibilidades como instrumentos heurísticos.
BIBLIOGRAFIA
(1) MARX, Karl & ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã (Feuerbach). São Paulo, Editorial Grijalbo, 1977, p. 127.
(2) GUIDDENS, Anthony. As idéias de Durkheim. São Paulo, Editora Cultrix, Coleção Mestres da Modernidade, 1978, p. 24.
(3) BOURDIEU, Pierre. Pierre Bourdieu. São Paulo, Editora Ática, Coleção Grandes Cientistas Sociais, 1983, p. 12.
(4) MARX & ENGELS, op. cit., p. 128.
(5) Idem, p. 39.
(6) CASTORIADIS, Cornelius. A instituição imaginária da sociedade. São Paulo, Editora Paz e Terra, 1982, p. 55.
(7) GUIDDENS, Anthony. Novas Regras do Método Sociológico. Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1978, p. 169.
(8) KOSIK, Karel. Dialética do Concreto. Rio de Janeiro, Editora Paz e Terra, 1976, p.35.
Referência:
GENRO FILHO, Adelmo. Algumas questões de método em sociologia. Boletim de Ciências Sociais – Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais. Florianópolis, UFSC, mimeo., n.40, jan.-mar., 1986, pp. 1-12. [Texto produzido para a disciplina "Técnicas de Pesquisa em Sociologia" do Curso de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC, ministrada pela professora Neide Almeida Fiori, no primeiro semestre de 1984] [Ref.: T080]

Atividade
Este, de longe, é o texto mais complexo dos textos estudados até o momento, por isso vamos “dissecá-lo” para melhor compreendê-lo. Siga as orientações descritas nos tópicos abaixo:
1-) Leitura geral do texto.
2-) Separação das partes do texto seguindo o seguinte critério:
a) Pensamento de Durkheim.
b) Pensamento de Max Weber.
c) Pensamento de Karl Marx.
d) Pensamento de Descartes
3-) Dividindo os diversos momentos históricos do texto:
a) Idade Média
b) Renascimento
c) Iluminismo
4-) Idéias dos pensadores contemporâneos:
a) Anthony Giddens
b) Pierre Bourdieu
c) Cornelius Castoriadis
d) Karel Kosik
5-) O que significa utilizar um método científico em ciências sociais?

quinta-feira, 15 de março de 2007


SIGNIFICADO DA SOCIEDADE HUMANA
O que é a sociedade humana? Mais exatamente, o que é uma sociedade humana? Vimos que para Spencer a socie-dade humana é comparável a um organismo vivo com fun-ções semelhantes às encontradas num ser orgânico. Em Prin-cipies of Sociology, Spencer estendeu-se bastante na elabo-ração dessa analogia. Afirmou que o organismo biológico e a sociedade se subordinam a processos de crescimento e de-clínio, ambos consistem em partes interdependentes, ambos possuem um sistema regulador — o sistema nervoso no ani-mal e o sistema governamental na sociedade — e até um sis-tema distributivo, formado pelo sistema circulatório no pri-meiro, e pelo sistema de comunicações no segundo. Embora Spencer afirmasse que essa analogia deveria ser encarada como uma simples ilustração, e salientasse as importantes di-ferenças existentes entre os organismos biológico e social, ele utilizou a analogia para analisar muitos fenómenos sociais.
Alguns contemporâneos de Spencer, notadamente o so-ciólogo e filósofo russo-alemão Paul von Lilienfeld, foram mais adiante na tentativa de comparar a sociedade com um organismo vivo. Para Lilienfeld, a sociedade é um organis-mo vivo com todas as suas características, inclusive a multi-plicação, crescimento, metabolismo, doença e morte. A socie-dade é para ele apenas o mais avançado e complexo dos or-ganismos. Outros que aceitaram a visão de sociedade como um ser orgânico são o sociólogo e estadista alemão Albert G. F. Schãffle, o sociólogo francês René Worms e o soció-logo russo-francês Jacques Novicow, cada um desenvolven-do a ideia de maneira própria. Todos esses escritores per-tencem à chamada escola bioorganicista.
A analogia organicista de Spencer recebeu várias crí-ticas de seus contemporâneos. Entre os que rejeitaram a visão da sociedade comparável a um organismo está o eminente so-ciólogo russo Nikolai K. Mikhailovsky. Ele argumentava que a sociedade, em vez de ser um organismo, era uma "coorde-nação de organismos indivisíveis", cada um deles com ór-gãos próprios e realizando uma totalidade de funções. En-quanto no organismo, escreveu ele, o todo, e não suas partes constitutivas, sofre ou experimenta prazer, na sociedade ape-nas os seus membros podem ter consciência de dor ou prazer. Não se pode. portanto, considerá-los análogos, embora haja semelhanças entre ambos, particularmente quanto aos pro-cessos de mudança.
A alegação de que a sociedade é um organismo é, no momento, totalmente desacreditada. O fato de que a socie-dade se compõe de indivíduos que são entidades biológicas não a torna uma entidade possuidora das características de seus componentes. Poder-se-ia afirmar, também, que a or-ganização comercial é um organismo biológico porque é com-posta de indivíduos que são entidades biológicas.
A sociedade tem sido definida de diferentes maneiras. Sumner e Keller, em The Science of Society, consideraram a sociedade "um grupo de seres humanos vivendo em esforço cooperativo para a subsistência e perpetuação da espécie", enquanto o sociólogo fino-inglês Edward Westermarck a entendia simplesmente, mas de maneira mais vaga, como um grupo de indivíduos que levam uma vida de cooperação. Giddings, por outro lado, em Readings in Descriptive and Historical Sociology, definiu a sociedade como "um grupo de indivíduos que cooperam para a realização de qualquer as-sunto de interesse ou utilidade comum". Robert Maclver, em Sociology, descreveu a sociedade como "um sistema de rela-ções sociais no qual e através do qual vivemos", enquanto o sociólogo italiano Vilfredo Pareto a encarava como um agre-gado de moléculas humanas vivendo em relacionamento mútuo.
Esclarecendo melhor essas várias opiniões, talvez pos-samos dizer que a sociedade é um grupo de pessoas unidas por tradições, costumes e modos de viver comuns, ou uma cultura comum, em que existe entre seus membros uma consciência de grupo. Essa última característica, o senso de per-tencer ao grupo, foi acentuado por Maclver e Giddings. De-ve-se acrescentar que o termo sociedade é usado pêlos so-ciólogos em sentido amplo e restrito. No sentido mais amplo, inclui a raça humana como um todo, mas no sentido restrito — usado com mais frequência — refere-se a grupos que va-riam em tamanho desde um pequeno número de famílias, constituindo uma tribo primitiva, às modernas nações de cen-tenas de milhões de pessoas. Assim, o sociólogo fala de so-ciedade humana e, ao mesmo tempo, de sociedade zulu, caraíba, esquimó, albanesa, hindu, mexicana ou americana. Uma sociedade nesse sentido, além disso, inclui uma grande va-riedade de grupamentos menores, como grupos de idade e sexo, classes económicas ou sociais, grupos ocupacionais e comunidades.

TEORIAS DA ORIGEM DA SOCIEDADE HUMANA
É extremamente difícil, se não impossível, descobrir ori-gens em assuntos humanos, no sentido de averiguar exatamente o que aconteceu no princípio. A ciência abandonou a procura das primeiras origens, deixando esse problema para os filósofos especulativos, e satisfazendo-se com relações causais. O cientista social espera chegar a inferências razoa-velmente bem fundadas, e não a certezas, quanto aos vários aspectos ou fases da vida social, e à vida social em si mes-ma. O início é nebuloso, e muitos elos da corrente talvez não venham jamais a ser encontrados. Por isso, as explica-ções relativas às origens da sociedade são muitas e di-vergentes.

Concepções dos Filósofos Antigos e Modernos
Podemos encontrar, na Antiguidade, uma vaga concep-ção de um tipo de processo evolucionista no pensamento dos filósofos gregos. Nas obras de Platão e Aristóteles encon-tra-se tanto a ideia de mudança social, quanto o conceito de progresso. Centenas de anos mais tarde, o poeta romano Lucrécio, escrevendo no século I, expressou, em De rerum navarum, a ideia de evolução não somente das coisas materiais, mas também dos assuntos sociais. O maior desenvolvimento desse conceito, contudo, só foi feito séculos mais tarde. No século XVII, encontra-se, novamente, a noção de evolução social nas interpretações dos filósofos. Essas teorias baseavam-se, naturalmente, quase todas na especulação. Assim, o filósofo inglês Thomas Hobbes, um dos primeiros de uma série de pensadores dos séculos XVII e XVIII preocupados com a origem dos fenómenos, inclusive da sociedade huma-na, concluiu que o homem foi, de início, pouco mais do que um selvagem, levando uma vida isolada e egoísta, visando apenas à satisfação de seus próprios desejos e impulsos. O homem primitivo estava sempre em guerra com os outros ho-mens, e vivia no terror perene de ser atacado e morto pêlos vizinhos. Com o tempo, no entanto, compreendeu que, reu-nindo-se em bandos e concordando em viver em paz com os vizinhos, seria capaz de livrar-se das condições insuportá-veis em que se encontrava. A sociedade organizada emergiu desse período da existência humana.
Um contemporâneo de Hobbes, John Locke, divergiu dele ao representar o estado original do homem como sendo mais pacífico do que beligerante. Mas afirmou igualmente que, para progredir, o homem teve que reunir-se em grandes gru-pos, em vez de viver em famílias isoladas e pequenos bandos, que, para ele, foram a forma original da vida grupai. Opinião semelhante foi manifestada pelo filósofo francês do sé-culo XVIII Jean-Jacques Rousseau. Considerando o estado original do homem nem bom, nem mau, mas simplesmente "natural", ele o imaginou, entretanto, como fundamentalmen-te selvagem e cruel, até que o homem entrou em acordo com seus semelhantes para viver em paz e, assim, aprendeu a controlar-se. Como esses escritores, e alguns outros de me-nor importância, conceberam a sociedade humana como sen-do o resultado de um tipo de acordo ou "contrato" feito pêlos homens, eles são conhecidos como expoentes da teoria do contrato social da sociedade humana. Concepções dos Primeiros Pensadores Sociais e Sociólogos
Baseando ainda sua teoria da origem da sociedade hu-mana na especulação, o pensador italiano Viço chegou a con-clusões bastante artificiais sobre o princípio da associação humana. Afirmou, precisamente, que o homem, desde o início, viveu em grupos. Em determinado período, no entanto, as re-lações sociais degeneraram, forçando o homem a viver num estado anti-social, bárbaro e cruel, do qual emergiu tomando consciência de uma presença divina e do consequente senti-mento de vergonha. Montesquieu, por outro lado, acreditava que o homem fora levado à vida associativa pelo medo das opressivas forças naturais, diante das quais se sentia desam-parado e só. Na interpretação desses autores, e na dos adep-tos da escola do contrato social, está implícita a ideia da evolução e progresso.
O francês Condorcet foi mais específico em sua formu-lação de uma teoria da evolução e progresso. Em Esquisse d'un tableau historique dês progrès de iesprit humain, propôs uma teoria da evolução social em estágios, segundo a qual a civili-zação passara por dez estágios de desenvolvimento, cada um mais elevado do que o anterior, sendo que o mais alto de todos estaria ainda por atingir. Com essa teoria, Condorcet antecipou o "primeiro" sociólogo, Comte, embora este o negasse.

Teorias de Comte e Spencer

Já mencionamos a teoria dos três estágios de Comte, pêlos quais a humanidade presumivelmente passa. Comte suplementou essa teoria, relativa principalmente ao desenvol-vimento intelectual, com outra, segundo a qual a história hu-mana passa de uma era Militar para uma Legalista e dessa a uma Industrial, correspondendo aos estágios Teológico, Metafísico e Positivo. Em sua opinião, a sociedade surgiu como o resultado de uma necessidade premente de associa-ção dos seres humanos, que se desenvolveu segundo leis de-finidas. Comte acreditava que as sociedades existentes se encontram em estágios diferentes de desenvolvimento, desde o mais primitivo ao mais evoluído, e que, além disso, os vários aspectos da vida em qualquer sociedade podem estar em ní-veis diferentes. O progresso, afirmava ele, é inevitável, em-bora seja necessariamente gradual, lento e desigual; um estado de existência altamente desejável pode ser atingido através de determinadas reformas de longo alcance.
A teoria da evolução social teve seu desenvolvimento e elaboração mais altos com Herbert Spencer, considerado o pai do evolucionismo clássico. Deve-se recordar que Spencer con-siderava a sociedade semelhante a um organismo biológico. Outra teoria sua, mais rica e influente, asseverava que a so-ciedade se subordina às mesmas leis de evolução de todas as matérias, orgânicas ou inorgânicas. Em outras palavras, pode-se observar o mesmo processo evolutivo em todos os fenóme-nos, inclusive os sociais, que ele significativamente chamava de "superorgânicos" Sua teoria geral da evolução, englo-bando todos os fenómenos, é apresentada em First Principies, enquanto a teoria dos fenómenos superorgânicos, ou sociais, é tratada em detalhe em suas obras sociológicas, The Síudy o f Sociology e The Principies of Sociology.
Em resumo. Spencer afirmou que a sociedade humana. como os outros fenômenos, se desenvolveu de um estágio sim-ples para um complexo; a evolução foi lenta e gradual, em estágios bem definidos. Evolução significava para ele, em geral, progresso. A sociedade humana avançara de um esta-do selvagem para um estado civilizado, passando por vários níveis intermediários. As sociedades primitivas contemporâ-neas representavam para ele o homem num estágio social jo-vem e ainda não-desenvolvido. Sustentava, outrossim, que as sociedades atrasadas tendem a ser combativas; com seu progresso tendem a ser mais pacíficas, de modo que a indús-tria tende a substituir o militarismo. Adiantou ainda que as guerras primitivas produziram a integração necessária à for-mação dos grupos sociais. Spencer, entretanto, não encarava a evolução corno progresso contínuo, mas afirmava que há um limite, após o qual ocorre desintegração e morte. A desinte-gração também é gradual e implica um processo de evolução •o inverso. A evolução é, portanto, de natureza cíclica.
Segundo Spencer há um processo de equilibração envol-vido na evolução, o que siqnifica, no caso da sociedade, que há uma tendência para o alcance de um equilíbrio entre a sociedade e seu ambiente, entre uma sociedade e outra, e entre os vários grupos e forças sociais dentro de uma sociedade. O equilíbrio ocorre através da luta pela vida. Quando o equi-líbrio é atingido, a sociedade desfruta paz e liberdade. Como a sociedade e suas instituições estão sujeitas a um processo automático de evolução, Spencer concluiu que é inútil tentar mudar as condições, e os indivíduos devem ajustar-se ao status quo. Era um entusiástico defensor do laissez-faire, embora concordasse Jia possibilidade de reformas limitadas.
Entre os defensores da teoria da evolução linear e pro-gressiva estava Maksim M. Kovalevsky. Segundo este gran-de sociólogo russo, a sociedade humana passou por vários estágios bem definidos, até alcançar, finalmente, a ordem so-cial democrática, a mais alta que se conhece. O estágio mais primitivo da organização social foi a horda, fracamente or-ganizada como um sistema familiar, ou clã, matrilinear (um sistema no qual só se reconhece a filiação da linha feminina materna). A esse sucedeu um sistema patrilinear, ou de gens. O sistema de gens desenvolveu-se num tipo de organização feudal, que prevaleceu durante muito tempo em muitas so-ciedades antigas e modernas. O sistema feudal, finalmente, cedeu a uma ordem democrática marcada pela igualdade e liberdade.
Poucos sociólogos, se é que os há, aceitam a teoria da evolução social exposta por Spencer. As provas reunidas nas últimas décadas sobre as sociedades humanas não revelam tal padrão evolucionista. Quanto à analogia organicista, a comparação entre o desenvolvimento das sociedades humanas e as matérias orgânicas e inorgânicas é considerada sem valor. Até mesmo importantes biólogos darwinistas, como Thomas Huxley e Alfred Russel Wallace, discordaram da compara-ção de Spencer. A identificação da evolução com progresso também é rejeitada pela maioria dos sociólogos, pois é difícil determinar o que é progresso, principalmente nos aspectos não-materiais da vida humana. Tudo o que se pode perceber é a mudança — nenhuma sociedade é completamente estática — mas a mudança não implica necessariamente progresso. Os sociólogos preferem usar o termo "mudança" em vez de "evolução" Recentemente propôs-se uma versão diferente da ideia da evolução social, que pode ser considerada um "neoevolucionismo". Talvez os principais defensores dessa nova ver-são sejam os antropólogos Leslie A. White e V. Gordon Childe. Em Science of Cultue, White faz uma distinção en-tre o que denomina fases tecnológica, sociológica e ideológica de cultura. (As duas últimas dependem da primeira.) Uma cultura com eficiente sistema tecnológico é uma cultura evo-luída, enquanto outra com fraco sistema de utilização de energia é primitiva. Childe, em Social Evolation, afirmou que as culturas passam por três estágios bem definidos — selvageria, barbarismo e civilização — e subordinam-se a pro-cessos semelhantes aos que agem na evolução orgânica, isto é, hereditariedade, adaptação e seleção.
KOENIG, Samuel. Elementos de Sociologia. Rio de Janeiro, Zahar,1996
Exercícios
1-) Qual é a concepção de Spencer sobre a sociedade humana? Atualmente esta concepção é aceita por aqueles que estudam a sociedade?
2-) Qual destas concepções de sociedade apresentadas no texto você julga suficiente ?
3-) Qual ponto em comum tem a teoria de Spencer com o texto: Estágios pré-históricos de cultura. Podemos traçar um paralelo entre Spencer e Morgan?
4-) Aponte o ponto de equilíbrio que existe na sociedade, segundo a concepção de Spencer.
5-) “Spencer concluiu que é inútil tentar mudar as condições, e os indivíduos devem ajustar-se ao status quo(...)” Você concorda com esta afirmação? Por quê?
6-) Quais são as razões pelas quais, os sociólogos nos últimos anos, são contrários a concepção evolutiva da sociedade?